Ir para o conteúdo

Classes de palavras, verbos e pronomes ​

Matéria: Língua Portuguesa
Voltar ao índice da matéria.

Classificar pela função no contexto ​

As dez classes não são etiquetas permanentes para sequências de letras. Em “o jantar terminou”, jantar é substantivo; em “vamos jantar”, verbo. Em “trabalhou muito”, muito é advérbio; em “realizou muitos trabalhos”, pronome indefinido variável.

Substantivo, artigo, adjetivo, numeral, pronome e verbo são variáveis. Advérbio, preposição, conjunção e interjeição são invariáveis. Essa é uma divisão morfológica; função sintática deve ser analisada separadamente.

O grupo nominal ​

O substantivo nomeia entidades, ações, estados e conceitos. O artigo determina ou indetermina: “rejeitou uma proposta” introduz; “rejeitou a proposta” pressupõe objeto identificável. O artigo também substantiva: “o novo exige adaptação”.

O adjetivo atribui característica ou relação. “Decisão prudente” admite gradação; “política salarial” é relacional e não costuma admitir “muito salarial”. A posição altera sentido: grande administrador tende a significar notável; administrador grande, dimensão física.

O numeral quantifica seres ou indica sua ordem em uma sequência. Em “duas propostas”, o numeral cardinal informa quantidade; em “segunda proposta”, o ordinal informa posição. Há ainda multiplicativos, como “dobro”, e fracionários, como “um terço”. A função sintática varia: o numeral pode acompanhar um substantivo ou ocupar sozinho o núcleo de um termo.

O pronome relaciona o enunciado às pessoas do discurso ou retoma elementos já mencionados. Pronomes pessoais como “eu”, “ele” e “nos” identificam participantes e mudam de forma conforme a função sintática. Os possessivos indicam vínculo — “nosso projeto” —, mas esse vínculo pode ser ambíguo se houver mais de um possível possuidor.

Demonstrativos como “este”, “esse” e “aquele” localizam elementos no espaço, no tempo ou no próprio texto. Indefinidos, como “algum” e “ninguém”, apresentam referência imprecisa. Interrogativos introduzem perguntas diretas ou indiretas: “qual foi escolhido?” e “não sei qual foi escolhido”.

O pronome relativo merece atenção especial porque desempenha duas tarefas simultâneas: retoma um antecedente e inicia uma oração que o caracteriza. Em “o relatório que recebemos”, que recupera “relatório” e funciona como objeto de “recebemos”. Por isso, a análise do relativo depende também da função exercida dentro da nova oração.

Verbos: tempo, modo e aspecto ​

O verbo organiza a oração por concordância e regência e flexiona-se em pessoa, número, tempo, modo e voz. O indicativo apresenta constatação; o subjuntivo, hipótese, desejo ou dependência; o imperativo, orientação.

Tempo gramatical não coincide sempre com cronologia. O presente expressa hábito, verdade geral ou futuro próximo. O pretérito perfeito vê o evento como concluído; o imperfeito mostra duração, habitualidade ou pano de fundo: “quando a equipe revisava, o sistema falhou”. O futuro do pretérito marca também hipótese ou cortesia: “a medida reduziria custos”.

O aspecto mostra a fase: “começou a revisar” (início), “está revisando” (desenvolvimento), “acabou de revisar” (conclusão recente), “costuma revisar” (hábito).

Formas nominais e vozes ​

Infinitivo, gerúndio e particípio aproximam o verbo de outras classes: “é necessário planejar”; “planejando bem, reduziremos riscos”; “processo planejado”. Locução verbal reúne auxiliar e principal: “deve cumprir”, “estava analisando”, “foi aprovado”.

Na ativa, o sujeito pratica; na passiva, recebe: “a equipe elaborou o plano” / “o plano foi elaborado pela equipe”. A passiva sintética usa se: “elaboraram-se os planos”, concordando com o sujeito paciente. Em “precisa-se de analistas”, a preposição impede a passiva; o se indetermina o sujeito e o verbo fica singular.

Pronomes e colocação ​

Pronomes retos tendem a ser sujeito; oblíquos, complementos. O, a, os, as substituem objeto direto; lhe, lhes, indireto: “entregou o relatório ao diretor” → “entregou-o ao diretor” / “entregou-lhe o relatório”. Após preposição: “entre mim e você”. Se o pronome é sujeito de infinitivo: “para eu analisar”.

A próclise é atraída por negação, relativos, indefinidos, interrogativos, subordinativas e certos advérbios: “não se informou”; “quando me chamarem”. A ênclise põe o pronome depois: “informou-se”. A mesóclise ocorre no futuro formal sem atrativo: “informar-se-á”; com negação: “não se informará”.

Na norma-padrão, não se inicia oração com pronome oblíquo átono: prefere-se “Entregaram-me o relatório” a “Me entregaram o relatório”. Em locução verbal, a presença de palavra atrativa orienta a posição: “não me deve informar” ou “não deve informar-me”. Sem atrativo, são possíveis construções como “deve-me informar” e “deve informar-me”, observadas as restrições do particípio: diz-se “tinha-me informado”, não “tinha informado-me”.

Quando o, a, os, as aparecem após verbo terminado em r, s ou z, assumem as formas lo, la, los, las: “revisar + o” → “revisá-lo”. Após som nasal, usam-se no, na, nos, nas: “entregaram + o” → “entregaram-no”. A mudança é formal; a função continua sendo objeto direto.

Relativos e regência ​

O relativo exerce função na oração que introduz. “O relatório que analisei”: objeto direto. “O relatório de que preciso”: precisar de fornece a preposição. “A norma a que obedecemos”: obedecer a. Cujo indica posse, concorda com a coisa possuída e rejeita artigo: “a empresa cujos contratos venceram”.

Classificar é o início. A pergunta decisiva é: qual relação a palavra estabelece nesta construção e quais flexões ou complementos essa função exige?